Projetado pela arquiteta Aline Roman, este consultório de psiquiatria rompe com os códigos tradicionais da arquitetura médica. Nada de branco asséptico, mármore Carrara ou luz fria. O espaço se aproxima mais da ideia de refúgio do que de clínica, oferecendo silêncio, confiança e acolhimento.
A liberdade criativa foi determinante: por se tratar de psiquiatria, havia menos restrições sanitárias, o que abriu caminho para experimentar cores, materiais e texturas pouco comuns em ambientes médicos. Cada detalhe, da iluminação indireta às soluções acústicas, reforça a ideia de cuidado sensorial e introspecção.
O mobiliário, fornecido pela Artesian, dá corpo à narrativa. O biombo assinado por Charles e Ray Eames confere flexibilidade à sala, permitindo expandir ou recolher o espaço de acordo com cada atendimento. O banco Time-Life, também do casal norte-americano, funciona como apoio junto ao sofá, adicionando uma camada de atemporalidade. A cadeira Series 7, de Arne Jacobsen, em sua versão giratória, completa a área de atendimento, posicionada frente a uma mesa em aço e madeira desenhada sob medida.
Aline traz para sua prática a bagagem da UFPR em um período pré-internet, uma época de aprendizado quase artesanal, guiado pela observação e pela prática. Hoje, traduz essa experiência como slow design: decisões que amadurecem no tempo e na experiência. Como professora e profissional consolidada, reconhece a potência de softwares como BIM e renders hiper-realistas, mas os vê como instrumentos de expansão, nunca substitutos da essência projetual.
Essa visão se conecta ao olhar crítico da arquiteta sobre a chamada crise estética. Para Aline, talvez não seja ausência de estilo, mas reflexo de uma época plural e acelerada, em que estilos surgem e circulam tão rápido que raramente se consolidam. Esse movimento, por si só, já define uma estética própria do nosso tempo. Ao mesmo tempo, a pluralidade e o excesso exigem atenção: a arquitetura não pode se reduzir à imagem ou à mercadoria. Ela precisa incorporar ética, responsabilidade ambiental e social, especialmente diante de um mercado imobiliário que tantas vezes dita os padrões da cidade.
Nesse contexto, resgatar técnicas e saberes locais, valorizando o conhecimento plural da arquitetura como matéria política e social, é também uma forma de recuperar profundidade simbólica no fazer arquitetônico. Assim, o valor não está em perseguir uniformidade estética, mas em garantir coerência projetual: que cada obra faça sentido para o cliente, para o lugar e para o tempo em que é construída.
O consultório de psiquiatria traduz essa postura. Mais do que funcional, é manifesto: arquitetura como experiência de cuidado, onde técnica e poesia, solidez e delicadeza, silêncio e matéria convivem em equilíbrio.






















